Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Fernando Pessoa
(...)
"Podemos ir longe, se começarmos de muito perto. Em geral começamos pelo mais distante, o "supremo princípio", "o maior ideal", e ficamos perdidos em algum sonho vago do pensamento imaginativo. Mas quando partimos de muito perto, do mais perto, que é nós, então o mundo inteiro está aberto — pois nós somos o mundo. Temos de começar pelo que é real, pelo que está a acontecer agora, e o agora é sem tempo."
J. Krishnamurti
A última quarta-feira, 18 de maio, foi um dia atípico. O assassinato de Felipe Ramos de Paiva, aluno de Ciências Atuariais em vias de se formar pela FEA-USP*, impõe a todos nós uma reflexão sobre o momento em que vivemos. O foco não é simplesmente a morte de um jovem com todo o seu futuro pela frente, visto que esse tipo de barbárie reflete a luz do cotidiano paulistano. Trata-se de um debate a respeito de nossas relações sociais, bem como o papel da Universidade de São Paulo nesse contexto.
O primeiro ponto é a questão urbana, símbolo de gritantes desigualdades. A favela São Remo, ao fazer divisa com muros da Universidade, representa o mais claro contraponto à elite frequentadora do campus Butantã. O território, assim, simboliza uma espécie de fronteira interna da expansão capitalista baseada na manutenção de elevadas concentrações de riqueza.
Para tanto, a sociedade ocidental contemporânea, inserida nesse cenário por ela mesma criado, é pautada pelo individualismo. Esse processo de racionalização vê bases modernas na ascensão do pensamento liberal, difundido por teóricos iluministas como Immanuel Kant e Jeremy Bentham. Seus fundamentos são, primordialmente, a propriedade privada e a limitação do poder do Estado. Trata-se de uma tentativa de afirmação do indivíduo perante o âmbito social.
Essa realidade, por ser excludente, garante a existência de “discrepâncias” como a que aconteceu quase ontem no estacionamento da FEA. A pergunta que vem sendo discutida desde então é: Por que na USP? Respostas pontuais foram prontamente encontradas; falta de iluminação adequada e seguranças, entre tudo.
Uma pergunta importante seria: Por que não na USP? Observa-se uma tendência crescente de isolamento deste espaço acadêmico ante o resto da cidade. Uma das sugestões de combate à violência, inclusive, foi a instalação de catracas nos acessos à Universidade. A ideia, tão absurda quanto o argumento contra a “gente diferenciada”, na questão da linha laranja do metrô, sugere um regime de exclusividade para os alunos, principalmente – não é preciso lembrar que se trata de um espaço público.
A questão mais controversa, entretanto, é a entrada da PM nos domínios da USP. Antes de tudo, é preciso entender a questão legal envolvida nesse assunto. A USP é uma autarquia e, assim, possui autonomia com relação ao estado de São Paulo. Por outro lado, a polícia responde ao estado. Então, ao entrar no campus, ela se torna uma entidade independente, podendo exercer mandos e desmandos. É em todo o mundo que a polícia não entra em campi, e não apenas aqui. Essa é uma conquista histórica, pois se entende que a polícia vai de encontro com o livre pensar e a liberdade, ideais necessários em um ambiente acadêmico. Mais, um espaço de fato seguro não é necessariamente feito por policiais armados, que são mal treinados e mal pagos, como ocorre em São Paulo. Necessária mesmo é a mudança de paradigma referente à guarda universitária, que possui caráter de defesa patrimonial. Muito mais importante é capacitá-la e torná-la pessoal, no sentido de defender as pessoas que utilizam o espaço da Universidade.
É preciso que se exija do reitor um plano de gestão que priorize segurança e infra-estrutura necessária, ao contrário do gasto de milhões no deslocamento de funcionários para a reitoria retornar à Avenida Paulista. Mais do que isso, a questão não se limita a fatos pontuais, como instalação de postes ou câmeras de vigilância. Trata-se de um debate muito mais abrangente, referente à estrutura da nossa sociedade. Por fim, é um absurdo que uma pessoa precise morrer, para que medidas de segurança sejam tomadas.
*Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo
Arthur Meibak
Eu quero correr o mundo, ver o Sol morrer e nascer em todos os lugares que eu puder. Quero cantar os encontros e desencontros da vida, contar as horas para ver você chegar. Quero ir embora, voltar, olhar para trás e sorrir. Quero o dia que está por vir. Quero correr perigo.
Apesar de ser a maior de todas as minhas idealizações, viver o mundo talvez seja a menos ideal. Meu rumo é longe daqui, é perto, são ambos. Tudo ao meu redor parece distante. Então, são duas as proximidades que eu busco: Por um lado, há todo o mundo físico para eu alcançar. Por outro, pessoas.
Sinto-me ao mesmo tempo entregue a tudo e a mim mesmo. Eu costumava ter vontade de permanecer por anos, de aportar em colo seguro, eterno. Hoje eu quero ficar por meia hora e ir, abrir os olhos da saudade e partir. Quero durar apenas o suficiente para eu ser relevante.
Quero todos os motivos para me lembrar e para lembrar. Atiro-me em cada um dos amores. Faço deles razão de ser sempre que eu posso – às vezes o resguardo se faz necessário. É preciso também aprender a olhar sem rancor para o passado e aceitá-lo; perceber que as promessas de amor incondicional foram sinceras, apesar de a música sempre acabar.
Eu aceito tudo o que aconteceu em mim até agora, dos sorrisos aos sofrimentos. É assim que eu me preparo para o mundo, para percorrê-lo. Sou eu o responsável pelo que eu sinto. Não tenho o direito de atribuir essa responsabilidade a mais ninguém.
Quero correr o mundo, correr perigo. Assumo o risco.
Arthur Meibak
Quando eu era criança,
Adorava cirandar.
Dizia: Vamos brincar de ciranda?
Armem a roda. Vamos todos rodar.*
O quanto amei e o quanto eu amarei? Não. É impossível conhecer a medida verdadeira dos meus sentimentos e sensações. Posso até guardar o tempo que cada uma das eternidades da minha vida durou, mas não o quanto elas de fato foram eternas, em mim.
Eu me apaixonei tantas vezes... cada olhar e sorriso, únicos, ahh. Meus amores duram enquanto o ônibus passa entre as estações de seu itinerário, até que as “minhas” meninas desçam uma a uma, ponto a ponto, que teimam em sempre chegar. A contrapartida é a gente que embarca a cada parada.
Já fiz juras de amor eterno. Menti! Gritei aos quatro cantos do mundo minha vontade de parar tudo, de congelar os bons sentimentos, para eles nunca irem embora. Deixo-os - que escapem entre os meus dedos. Assim, novos suspiros ganham razão de ser no meu peito.
Hoje eu juraria o amor do instante, com toda a sua intensidade. Essa seria a jura mais sincera que eu poderia fazer. Ou ainda, deixo todas as promessas de lado - elas de nada servem. Eu quero o amor que chega sem pressa e vai embora sem avisar. Não preciso de um contrato assinado como garantia de amor sem fim.
Meu destino não pertence a ninguém, tampouco foi escrito previamente. Minhas escolhas guiaram meus passos até aqui. Meus erros e acertos. O que hoje forma meu ser. Não quero pensar o mundo daqui a um ano, ou a seis meses. Eu quero tudo agora. Minha felicidade merece não ficar marcada para o dia que ainda não chegou. Minha alegria deve ser o meio, e não o fim, no fim das contas.
Eu não tenho medo de me machucar, de machucar. Eu conheço o desamparo. Minha coragem decorrre desse fato. Sim, todo grande amor só é bem grande se for triste, caro Vinicius. É a tristeza do fim que carrega a magnitude da vida antes vivida, dos amparos, da existência de um porto seguro. Com o tempo, percebe-se a insegurança desse porto.
É exigência da vida a mudança. Reside aí a intensidade de tudo, indiferentemente do que as nossas voltas ao redor do Sol deveriam cronometrar, ou não.
*Cantiga popular
Arthur Meibak
O que me cativa... o que hoje faz parte de mim por ter cruzado em algum momento a minha vida, por ter se tornado relevante quando o fez... o que me cativou. Tudo o que eu vi e tudo o que já foi tocado por mim fazem parte da minha essência.
Minha vida inteira segue, de alguma forma, guardada em mim. Dos vultos desapercebidos aos momentos mais especiais, eu tenho tudo comigo. Está escrito na minha história o quanto eu mudei o mundo e o quanto ele me mudou. Minhas alegrias, meus amores eternos, minhas mágoas e meu cansaço são formadores do que eu sou, do que eu serei.
Dentre as minhas lembranças mais marcantes, certa vez eu encontrei uma daquelas pessoas especiais que só se conhece umas poucas vezes ao longo da vida - eu te conheci. Tratava-se de uma época especial para você e, a partir de então, para mim também. Eu me recordo claramente como estava o céu naquela noite. Além da Lua crescente, era possível ver estrelas, mesmo se tratando de São Paulo. O som das amizades conversando no bar, o vai e vem dos garçons, do chopp ao whisky com refrigerante, as conversas. Lembro-me de como eu pedi aquele beijo, bem como o gosto dele, com o qual eu tanto me familiarizei. Lembro-me do seu sorriso. As músicas que eu escutava naquela época, a sensação da sexta-feira virando sábado... eu me lembro de tudo.
Por vezes eu me vejo imaginando aqueles momentos, que se perderam no tempo. Vejo-me pensando naquelas pessoas que eu nunca cheguei a conhecer e em como certas coisas são inexplicáveis. Eu não sei explicar o que me fez deixar o meu dia para trás, a fim de chegar a tempo naquela noite. Não sei dizer de onde veio a certeza que eu sentia sobre o que fazer, enquanto eu ia para lá - foi um dos meus maiores acertos.
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro.*
Se hoje eu voltasse para aquele lugar, para aquele bar, eu não veria com os mesmos olhos a lua crescente e as estrelas. Aquelas pessoas seriam outras. As conversas seriam outras. Você não estaria lá, simplesmente porque você não existe mais.
Maio de 2010
*Álvaro de Campos
Arthur Meibak
Uma vez mais, minhas intenções passam longe de Lisbon Revisited. O céu, escuro nesses instantes, precede o começo do amanhã. Decerto, sinto plenamente que o declínio dos dias e das cousas está a enxergar um final. Eu já consigo sorrir para o horizonte, que passou a fazer um sentido inexistente em mim, até ontem de tarde.
Sim: Eu quero tudo. Já disse que eu quero tudo. Ó mágoa revisitada. A Lisboa de outrora de hoje deixa de exemplificar a nostalgia em minha vida, para me mostrar a profundidade dos meus sentidos e a necessidade encontrada por mim de querer tudo uma vez mais. Eu quero o mundo novamente. Eu quero o sorriso, o choro, a oposição, contradição. A intensidade! Sim: Eu quero tudo.
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Conseguiram, pois. Até a desilusão completa vestiu minhas vontades, ou a falta delas. Mas não. Não agora. Agora eu quero não ser sozinho. Eu quero dialogar com o passado, mas não quero morrer nele, nem por ele. Eu quero alçar meus vôos mais altos, a caminho do desconhecido. Que seja um sonho bom, daqueles em que todos vivem felizes para sempre, por mais que a eternidade dure um minuto só.
Eu busco os nossos segredos. Quero tê-los comigo. Eu quero ser fundamental, mesmo que por um breve instante. Não, o tempo não importa. Não me venham com conclusões! Não é essa morte a que eu busco. Minha morte só diz respeito ao passado, que não possui mais razão de ser em meu cotidiano.
Eu quero a insegurança de não saber o que virá. Quero distância do falso conforto proporcionado pelo sentimento de posse. Eu não quero te ter. Não devo querer. Não posso, mesmo que você vá embora com a mesma velocidade que te trouxe. Minha felicidade deve residir no fato de te ver sorrir, livre para existir da melhor forma possível.
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio não quero estar sozinho!
Arthur Meibak
