Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.


Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.


(Manuel Bandeira)

 Começos, encerramentos e meados. Passagem. Qual é o movimento da vida, se não esse? A alegria dos inícios e a angústia dos finais se misturam em mim, somam-se, resultando em certa sensação de desventura. Ainda, o que se pretende tristeza precede o abraço entre estes sentimentos antagônicos; remete à distorção que se dá entre os objetivos que eu busco, sempre quase utópicos, e a realidade, distante de todos os sonhos que me envolvem.
Deixando de lado qualquer tentativa “metafísica” de explicação do presente, eu me arrisco a dizer que a distância entre ideia e prática é raison d’être de quase toda a frustração que eu sinto. Há algo de inquietação em perceber que eu não me tornei o arquiteto que um dia eu sonhei ser. Não sou, também, engenheiro, nem físico, nem astrônomo. Não sou nada que, em algum momento, eu me imaginei sendo.
Envolvido nesse infortúnio de não ser, eu sou (?).
“O que é ser?”, pergunto eu à minha consciência, que eu não conheço muito bem, diga-se. Não consigo elaborar uma definição categórica, simplesmente. Tem que ver com observar – é o primeiro ponto que me vem à cabeça. Tem que ver com interpretar. Tem que ver com tomar partido. A consequência direta de ser, feitos esses juízos simplórios, é o indignar-se com a realidade que está posta; é, também, aceitar o irrefutável! Voz ativa frente à ordem vigente é fundamental, tanto quanto a noção de que a vida é implacável ao impor sua transitoriedade sobre nós.
Em meio a tanto: haver – (im)pessoal.
Ser, portanto, implica estar entre a dureza imposta pelas demandas sociais do mundo e os ideais que nascem logo em cima do travesseiro. O resultado é uma implacável consternação, decorrente de querer o que não se tem, e ter o que não se quer – eu quero o mundo, mas o que eu tenho é uma janela. 


Arthur Meibak

Aprende - lê nos olhos,
lê nos olhos - aprende
a ler jornais, aprende:
a verdade pensa
com tua cabeça.

Faça perguntas sem medo
não te convenças sozinho
mas vejas com teus olhos.
Se não descobriu por si
na verdade não descobriu.

Confere tudo ponto
por ponto - afinal
você faz parte de tudo,
também vai no barco,
"aí pagar o pato, vai
pegar no leme um dia.

Aponte o dedo, pergunta
que é isso? Como foi
parar aí? Por que?
Você faz parte de tudo.

Aprende, não perde nada
das discussões, do silêncio.
Esteja sempre aprendendo
por nós e por você.

Você não será ouvinte
diante da discussão,
não será cogumelo
de sombras e bastidores,
não será cenário
para nossa ação.


Bertold Brecht

Todos os discípulos de Cristo adormeceram.
Eles não haviam entendido o sentido da Última Ceia.
E, quando os guardas chegaram, eles fugiram... e Pedro o negou.
Cristo já conhecia seus discípulos há 3 anos.
Eles conviviam dia e noite, mas os discípulos nunca entenderam o que Cristo pretendia.
Eles o abandonaram, todos eles.
Cristo ficou totalmente sozinho.
Isso deve ter sido um grande sofrimento.
Perceber que ninguém o compreende.
Ser abandonado quando precisa contar com alguém.
lsso deve ser extremamente doloroso.
Mas o pior ainda estava por vir.
Quando Cristo foi pregado na cruz, em meio ao sofrimento,
ele gritou: "Deus, meu Deus!
Por que me abandonastes?"
Ele gritou tão alto quanto podia.
Ele achou que seu Pai o havia abandonado.
Achou que tudo o que havia pregado era mentira.
Nos momentos que antecederam sua morte, Cristo teve dúvidas.
Aquele deve ter sido o seu maior sofrimento.
Deus ficou em silêncio.

Cena de Winter Light - Ingmar Bergman

Ah! Ser indiferente!
É do alto do poder da sua indiferença
Que os chefes dos chefes dominam o mundo.

Ser alheio até a si mesmo!
É do alto do sentir desse alheamento
Que os mestres dos santos dominam o mundo.

Ser esquecido de que se existe!
É do alto do pensar desse esquecer
Que os deuses dominam o mundo.

(Não ouvi o que dizias…
Ouvi só a música e nem essa ouvi…
Tocavas e falavas ao mesmo tempo…
Com quem?
Com alguém em quem tudo acabava no dormir do mundo…)

Álvado de Campos - 12/01/1935

Em que medida é possível saber a intensidade com que vivemos? Quanto tempo se leva para pensar nas pessoas que ficaram para trás, ou nas que estão por vir? Às vezes, eu busco respostas para perguntas que não possuem razão de ser. Talvez seja mais importante eu sentir a vida e o mundo, que racionalizar minhas sensações.
O viver de verdade, tão arriscado, demanda toda a bravura que se possa ter. A vida fere, impõe seu preço frente ao destino de cada amor. Aí o medo acorda e declara sua presença, enquanto a coragem que só os amantes conhecem vai embora, ciente do que é a solidão.
Sim, viver é perigoso. Mais perigoso, contudo, é deixar cada instante escorrer em vão pelos dedos. Perigoso mesmo é permitir que a vida vá embora sem de fato ter sido vivida. O Sol que nasce, e não dura mais que um dia, é a metáfora perfeita para explicar o quanto vale a pena se atirar, por mais que tudo acabe – o Sol que morre no horizonte é o mesmo que mostra toda a sua força na manhã seguinte.
Que venha o mundo. Que venha a vida. Eu me importo. Sinto falta, sinto saudades, e quero senti-las. Sinto sua presença, Amor. Com toda a relevância que você tem dentro de mim, eu te quero por perto. É justo que as pessoas tenham seu próprio tempo. Não obstante, o único tempo que importa agora é o presente, e meu presente é saber que há você.

Arthur Meibak

Em meio a alguns livros, eu junto planos e saudades. Minhas vontades, a partir de logo cedo, são de eu ser o melhor que posso. Respiro fundo e abro caminho rumo ao que eu ainda não sei.
É tempo de libertação e de entrega, tempo de exceção. Estes são dias em que eu miro os olhos da vida e a contemplo. Percebo comovido o fato de que é impossível impedir seu fluxo. O que faço então é acompanhar esse movimento de idas e vindas, de chegadas e de partidas. Vou me acostumando a não me habituar.
Fui traído pelas minhas certezas algumas vezes. Imaginei que a minha entrega seria o suficiente para eu vivenciar a sinceridade de relações verdadeiras, e para eu não me machucar. Justamente nesse ponto eu me desiludi. Eu me enganei ao pensar que a realidade pudesse ser reflexo da utopia que são minhas vontades. Em outras palavras, eu me enganei ao idealizar meus pares, querendo deles o que não se pode ter: Cumplicidade irrestrita.
A vida não é óbvia, nem são óbvias as pessoas que fazem ou fizeram parte do meu cotidiano. Os juízos de valor que eu tanto fiz são simplesmente ridículos. Ninguém é tão superficial a ponto de se resumir entre dualidades simples. As pessoas são muito mais do que boas ou más, belas ou feias. Obviamente são mais do que classes, crenças, ou cores. O Homem vai muito além do que a minha compreensão pode alcançar, por sinal.
Em posse dessa consciência, estou abrindo mais uma vez meus braços para o brilho e para a violência da vida, para a sua intensidade. Eu me atiro, como sempre, de corpo e alma. Mais do que isso, minha fé nas pessoas ainda é sincera, apesar de não mais incondicional. A consequência dela é o fato de eu estar pronto para ir embora quando for preciso. Estou pronto para chegar. Estou pronto para partir.
Não se trata de um começo. Não se trata de um final.
Tudo nessa vida é passagem.

Arthur Meibak


Arthur Meibak

Sobre este blog

Sei da eterna necessidade de questionar. Aqui isso se dá, obviamente, sob a ótica dos meus olhos. O resultado são linhas que versam a respeito do que vivencio. É, pois, a crônica dos meus dias, que possui inegavelmente um viés, fruto do que sinto e do que vejo.

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