Sobra falta em mim. Desde a mais distante lembrança que tenho, recordo-me desse vazio. É como se, independentemente do que eu fizesse, essa sensação continuasse a existir.
Vivo tentando suprir essa ausência, sem saber o que, de fato, falta. Tenho passado minha existência anotando meus planos e meus objetivos, sem, contudo, dar-me conta de que minha felicidade está sempre marcada para amanhã, ou depois. Conto mais de vinte anos sem que eu me visse satisfeito, a desejar o próximo passo rumo à plenitude, que nunca chega.
Minha vida é sempre o dia seguinte, a hora que ainda não chegou. São os anos que tenho gastado, esperando por qualquer que seja a mão capaz de me salvar do abismo que eu desconheço, apesar de saber o número de palmos que contam seu tamanho.
Eu não vivo em paz, sozinho. Não sei dizer que me vejo afetado por coisas pequenas aos olhos do cotidiano. Vivo perdendo minhas horas com inutilidades, sob a óptica da minha existência, que, por sinal, vive encontrando embaraço à fé que tenho quanto às cousas da vida. A certeza que levo comigo quando acordo não costuma ser a mesma que me guia quando vou dormir. Nau sem direção, guiada por mapas e bússola que levam a caminhos antagônicos, é o que sou. Já não tenho os mesmos anseios que tinha duas horas atrás. O dia é incerto, ou não.
Sempre vai faltar uma parte, mesmo quando eu acreditar ter descoberto a solução de tal desigualdade. Parece-me. Não tem bula meu remédio*.
*O Teatro Mágico
Arthur Meibak
Tão ridículas como as cartas de amor, longe das intenções de Lisbon Revisited, são as frases que intento escrever nesta hora. Em contraste com isso, há coisas outras que foram rabiscadas em minha vida e que registrei em linhas há dias e/ou meses.
A dor, tão verdadeira quanto parte do passado, é vista agora como alguém que se despede após momentos de felicidade e pesar, intrínsecos a qualquer que seja qual meu ser.
Um sorriso sincero é retrato do que sou nesse exato segundo. Sinto-me bem, a despeito de lágrimas passadas. Tão certa quanto isso é a consciência da motivação para tal. A certeza me liberta uma vez mais. A incerteza, também.
Em adição, a ambivalência resultante do ar que respiro volta a mostrar sua existência ante meus olhos. Aceito-a como quem reconhece da vida o pesar. Cada centímetro de sofrimento corresponde individualmente a todos os centímetros que contam minhas risadas. Assim, levo comigo que o todo sentido por mim nesse instante não apagará as decepções que terei além dos dias que se seguirão em algum momento. Essa compensação sequer deve ocorrer, incontestavelmente.
Assim, verdadeira é a ideia de que busco acalentar minha alma ao escrever sobre o que me fere. Em contrapartida, rabisco nesta folha sem precisar fugir de sentimento algum. Observo meus risos comparando a luz proveniente deles a uma criança que acaba de ser presenteada em uma data peculiar qualquer. Sou tão infantil. Minha felicidade é igualmente passageira, tanto quanto o que lhe é antagônica. O senão fica por conta da certeza de que, uma vez ausentes, esses sentimentos voltarão, em ciclos, pois são tidos como estados de espírito, mutáveis como isso. Aceito a condição. Minha vida é hoje, agora, enquanto escuto as músicas de amor que irrefutavelmente foram bloqueadas pelas minhas sensações, quando inertes em estações passadas.
A noite vai se esvaindo. Não tenho vontade de ir dormir. As cartas de amor são ridículas, enfim.
Arthur Meibak
Eu me lembro nitidamente do que foi diferente, entre tudo. Torno a abrir alguns montes de livros escritos imaginariamente sob motivação das memórias minhas, como se fossem todas elas de hoje cedo. Tenho esse hábito, que, entre tantos lugares, toma-se por existente sempre que passo por alguns números da Avenida Paulista e paro, em meus dilúvios, em frente à catraca de alguma estação de metrô, pondo-me a esperar.
Teimo ao querer sentir passadas sensações uma vez mais. Que seja. Passado. Vejo-me desejando profundamente que o sábado fosse outro que não esse último. Sei de toda a falta que insisto em sentir, de toda a falta de reciprocidade. Como se tal fato fosse resultado de minhas escolhas e como se isso justificasse devaneios em que me vejo envolvido há cerca de quatro, cinco ou seis meses, ou anos.
Ouço, então: “Reaja!”. É deveras simples apropriar-se dessa expressão, em meio à segurança de um abraço conveniente (?), devo dizer. Um disparate! Revolto-me ao escutar isso, recorrendo a épocas em que minha presença fora relevante. Tenho, não obstante, consciência da importância inerente ao fato de reagir.
Vivencio cotidianamente a automação de meus atos, de minha vida. "Não se pode parar", diria outrem. Reagir é isso? Não me importo tanto com os sentimentos das pessoas. Abandono-as. Se faço isso, acredito que seja em prol de algo melhor, para mim, é óbvio. Liberação de serotonina em meu sistema nervoso central é minha razão de ser – patético.
Devo seguir, não? “Vivendo e aprendendo”? Estou farto desse cinismo. A hipocrisia que circunda minhas relações era tida como inimaginável, vidas atrás. Eis que o Sol deu uma volta completa ao redor do meu mundo. Com isso, passo a acreditar na solidão como irrefutável à vida, salvos breves momentos, inigualáveis, afinal.
Arthur Meibak
Ama, que tudo é só amar
Sonha, que a vida é só sonhar
Toma do amor tudo que é bom
Toma depressa, enquanto é bom
Que depois o amor é só chorar
Ama, que a vida é só amar
Sonha, que tudo é só sonhar
Toma do amor tudo que é bom
Toma depressa, enquanto é bom
Que depois o amor é só chorar
Sim, depois o amor é só chorar
Depois o amor é só chorar
Geraldo Vandré
Rodada Doha é nominação dada a uma série de negociações que tem por intuito discutir a liberalização do comercio mundial. Esse nome lhe foi rendido pelo fato de que Doha, no Catar, fora sede da quarta conferência ministerial da OMC – Organização Mundial do Comércio, em novembro de 2001, evento em que ficou definida a ocorrência de tais discussões.
Trata-se de mais uma rodada em uma série que se desenvolve desde a criação do GATT - Acordo Geral de Tarifas e Comércio. Situam-se à mesa de discussões alguns temas de notada relevância para o Brasil. De maneira especial, agricultura, setor de serviços, acesso a mercados, sobretudo estadunidense e da união européia, com de redução da combatida, por parte de nações emergentes, tarifa para produtos industriais. Intenta-se ainda maior aprofundamento de regras sobre antidumping, subsídios, acordos regionais e propriedade intelectual, além de novos temas como investimentos, concorrência, transparência em compras governamentais, facilitação de comércio e comércio eletrônico, além de meio ambiente.
O principal problema dessa rodada é a preocupação em excesso que cada nação possui a favor de seus interesses próprios. Em adição, o maior propósito dessas negociações é desenvolvimento dos países pobres e o combate à fome.
Assim, nações emergentes como Brasil e Índia intentam a diminuição de impostos aos produtos agrícolas estrangeiros por parte da União Européia e dos Estados Unidos. As nações desenvolvidas, em contrapartida, querem maior abertura para seus produtos industrializados.
Por fim, todos almejam, pois, mercados mais abertos para seus produtos, sem, contudo, abrir seus próprios mercados, uma vez que temem por uma depreciação de suas economias devido a esse fato.
Arthur Meibak
A teoria da escolha racional toma por base o pressuposto intuitivo de que os atores assumem suas decisões racionalmente, ou seja, por meio de caminhos lógicos que os levem ao melhor resultado possível em uma interação com outros personagens. Assim, ficam evidenciadas as preferências desses jogadores, de forma que suas escolhas contornam caminhos outros que não os norteados pelo empirismo.
Nessa conjuntura, existe a dita relação completa de preferência. Isso ocorre quando, havendo duas escolhas possíveis para determinado ator, uma é tão boa quanto à outra. Assim, torna-se indiferente a escolha entre elas.
Há, além disso, a chamada relação transitiva de preferência. Desse modo, pressupondo-se a existência de três escolhas possíveis, A, B ou C, sendo A mais vantajosa que B e esta mais vantajosa que C, analogamente, A deve ser mais conveniente que C.
Segue então a conclusão de que uma escolha tomada é, ao menos, tão favorável quanto uma descartada. Existe sempre, pois, uma opção a ser feita. Esse fato, por si só, é capaz de trazer consigo a idéia de que a irracionalidade em uma escolha é posta de lado, incondicionalmente.
Por fim, a notação usada para caracterizar essas relações é dada por preferências ordinais, que enunciam o fato de as primazias escolhidas por determinado jogador serem colocadas em ordem de acordo com os possíveis resultados.
Arthur Meibak
Brevemente as nações esclarecidas colocarão em julgamento aqueles que têm até aqui governado os seus destinos. Os reis fugirão para os desertos, para a companhia dos animais selvagens que a eles se assemelham; e a Natureza recuperará os seus direitos.
Saint Just; Sur La Constituition de La France, Discours pronounce à la Convention, 24 de abril de 1793
Revolução Francesa: Contextualização.
O pano de fundo para a chamada Era das Revoluções é dado pelo mundo na década de 1780.
Primeiramente, deve ser clara a idéia de que os contornos geográficos nesse tempo impunham limites mais severos ao conhecimento humano, se comparados à atualidade.
Até mesmo os homens mais instruídos conheciam apenas uma fração do mundo habitado. Assim, o mapa do mundo caracterizava-se por espaços brancos cruzados pelas trilhas demarcadas por negociantes ou exploradores.
Nesse período, as diversas regiões distinguiam-se pelo aspecto rural. Mesmo em áreas com forte tradição urbana, a porcentagem agrícola era alta; Cerca de 80% em localizações tais quais Venécia, Calábria e Lucânia. Mesmo na Inglaterra, a população urbana ultrapassou a rural pela primeira vez apenas em meados do século XIX.
Nessa época, a urbanidade, no entanto, diferenciava das demais as duas cidades européias que podiam ser chamadas de grandes, segundo os nossos padrões – Londres, que possuía cerca de um milhão de habitantes, e Paris, com cerca de meio milhão. O termo “urbano” inclui também o sem número de pequenas cidades de província, onde se encontrava a maior parte dos habitantes urbanos; Lugares em que as pessoas podiam, em poucos minutos, percorrer a pé distâncias entre o centro civil e o campo.
Cabe ressaltar o fato de que a cidade provinciana pertencia ainda essencialmente à sociedade e à economia do campo. Suas classes média e profissional eram constituídas por negociantes de trigo e gado, advogados e tabeliões, tecelões e, por fim, o nobre e a Igreja.
Estruturalmente, burocracias de inúmeros pequenos principados, que eram pouco mais que grandes propriedades, administravam os interesses das altezas com os impostos cobrados sobre um campesinato obediente.
Posto isso, o problema agrário era fundamental na época aqui tratada. Os fisiocratas franceses tomaram como verdade o fato de que a terra e o aluguel dela eram a única fonte líquida de renda. O ponto principal, com isso, era a relação entre quem a cultivava e quem a possuía.
De tal modo, o camponês típico não tinha liberdade. Dedicava boa parte das semanas trabalhando na terra do senhor ou o equivalente em outras obrigações. O característico soberano de terras era um nobre proprietário e cultivador ou um explorador de enormes fazendas.
Essa estrutura exploratória trouxe consigo um colapso econômico devido à sua obsolescência, cada vez mais afirmada, nesse período. Com tal decadência, houve um constante aumento da exploração do chamado terceiro estado por parte da classe dominante – Nobres e Clérigos.
Para um camponês, qualquer pessoa que possuísse uma propriedade era tida como um “cavalheiro” e membro da classe dominante. Com isso, o status de nobre, capaz de conceber privilégios tanto políticos como sociais, era inconcebível sem uma posse. Essa ligação fortificava-se com o passar do tempo.
Eram, de maneira geral, pouco amplos os horizontes provenientes da realidade agrícola. O mundo do comércio e das manufaturas, em contrapartida, ao lado das atividades intelectuais que o acompanhava, era dinâmico e as classes que se beneficiavam dele, ativas e otimistas.
Com isso, ocorreu no terceiro estado o surgimento de um novo grupo, formado por aqueles que, independentes do que se conseguia ganhar unicamente por meio da posse de terras e de seu aluguel, alavancaram um enriquecimento antes impensável. São, entre outros, mercadores, que se tornaram campeões econômicos nessa época. Comparavam-se aos que possuíam cargos rendosos na coroa. Emergia, assim, a burguesia, em tempos de escassez.
Assim sendo, independentemente do status, as atividades comerciais e manufatureiras cresciam de forma contundente. No século XVIII, o Estado europeu mais bem-sucedido era a Grã-Bretanha, que devia o seu poderio plenamente ao progresso econômico. Por volta de 1780, qualquer governo que tivesse pretensão de estabelecer uma política racional deveria, intrinsecamente, pensar no crescimento econômico e no desenvolvimento industrial, especialmente.
Nesse contexto, a Enciclopédia de Diderot e d’Alembert era um sumário do progresso científico-tecnológico. A convicção no avanço do conhecimento humano e na racionalidade, além do “iluminismo”, serviu de impulso para o progresso da produção e do comércio.
Foram ícones dessa temática desenvolvimentista personalidades como Erasmus Darwin, James Watt e Benjamin Franklin, entre outros. Circundavam meios nos quais a ideologia iluminista se propagava.
Esse sistema de idéias confrontava o tradicionalismo ignorante da Idade Média, passando pela superstição da Igreja e pela irracionalidade que dividia homens em uma hierarquia de patentes de acordo com o nascimento ou algum outro critério similar. Liberdade, igualdade e fraternidade se tornaram os slogans da Revolução Francesa.
Os interesses estabelecidos do feudalismo e da Igreja eram tidos como obstáculos remanescentes ao progresso. A proposição de que a sociedade livre seria uma sociedade capitalista foi formulada com participação decisiva da classe média emergente, embora o “iluminismo” não fora ideologia estrita desse grupo.
Em adição, na França reinava uma monarquia absoluta. Monarcas hereditários reinavam sob o argumento irracional de que isso ocorria devido à vontade de Deus. Fato esse perpetuado com plena contribuição da Igreja.
Enfim, é esboçado, dessa forma, o cenário vislumbrado pelo palco da chamada Revolução Francesa.
Arthur Meibak