Não faz sentido evitar o fim,
Certo como o tempo que se esvai em mim.
Eu me desfaço,
Desamarro os laços que me prendem
Ao que não existe mais.
Eu vou embora.
Voei tão alto com meus sonhos e verdades
E agora o meu amor são só saudades.
Eu vou embora.
A vida mostra a sua cara assim
E o peso do passado me define, enfim.
Eu me despeço,
Despedaço o retrato de uma vida inteira que ficou para trás.
Arthur Meibak
Quero correr o mundo.
Quero vidas que mudem minha vida para sempre.
Quero correr para ver o Sol morrer e nascer.
Quero cantar os encontros e desencontros de ser.
Quero o instante em que você chegar...
E partir!
Quero mudar o mundo,
Mas não consigo sequer mudar a mim mesmo.
Hoje eu quero ficar por meia hora e fugir.
Quero ir embora, voltar, olhar para trás e sorrir
A alegria do início e a dor do final.
Partir!
Nunca voltarei,
Nunca voltarei porque nunca se volta.*
Arthur Meibak
*Álvaro de Campos
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.
Aprende - lê nos olhos,
lê nos olhos - aprende
a ler jornais, aprende:
a verdade pensa
com tua cabeça.
Faça perguntas sem medo
não te convenças sozinho
mas vejas com teus olhos.
Se não descobriu por si
na verdade não descobriu.
Confere tudo ponto
por ponto - afinal
você faz parte de tudo,
também vai no barco,
"aí pagar o pato, vai
pegar no leme um dia.
Aponte o dedo, pergunta
que é isso? Como foi
parar aí? Por que?
Você faz parte de tudo.
Aprende, não perde nada
das discussões, do silêncio.
Esteja sempre aprendendo
por nós e por você.
Você não será ouvinte
diante da discussão,
não será cogumelo
de sombras e bastidores,
não será cenário
para nossa ação.
Bertold Brecht
Todos os discípulos de Cristo adormeceram.
Eles não haviam entendido o sentido da Última Ceia.
E, quando os guardas chegaram, eles fugiram... e Pedro o negou.
Cristo já conhecia seus discípulos há 3 anos.
Eles conviviam dia e noite, mas os discípulos nunca entenderam o que Cristo pretendia.
Eles o abandonaram, todos eles.
Cristo ficou totalmente sozinho.
Isso deve ter sido um grande sofrimento.
Perceber que ninguém o compreende.
Ser abandonado quando precisa contar com alguém.
lsso deve ser extremamente doloroso.
Mas o pior ainda estava por vir.
Quando Cristo foi pregado na cruz, em meio ao sofrimento,
ele gritou: "Deus, meu Deus!
Por que me abandonastes?"
Ele gritou tão alto quanto podia.
Ele achou que seu Pai o havia abandonado.
Achou que tudo o que havia pregado era mentira.
Nos momentos que antecederam sua morte, Cristo teve dúvidas.
Aquele deve ter sido o seu maior sofrimento.
Deus ficou em silêncio.
Cena de Winter Light - Ingmar Bergman
Ah! Ser indiferente!
É do alto do poder da sua indiferença
Que os chefes dos chefes dominam o mundo.
Ser alheio até a si mesmo!
É do alto do sentir desse alheamento
Que os mestres dos santos dominam o mundo.
Ser esquecido de que se existe!
É do alto do pensar desse esquecer
Que os deuses dominam o mundo.
(Não ouvi o que dizias…
Ouvi só a música e nem essa ouvi…
Tocavas e falavas ao mesmo tempo…
Com quem?
Com alguém em quem tudo acabava no dormir do mundo…)
Álvado de Campos - 12/01/1935
Em que medida é possível saber a intensidade com que vivemos? Quanto tempo se leva para pensar nas pessoas que ficaram para trás, ou nas que estão por vir? Às vezes, eu busco respostas para perguntas que não possuem razão de ser. Talvez seja mais importante eu sentir a vida e o mundo, que racionalizar minhas sensações.
O viver de verdade, tão arriscado, demanda toda a bravura que se possa ter. A vida fere, impõe seu preço frente ao destino de cada amor. Aí o medo acorda e declara sua presença, enquanto a coragem que só os amantes conhecem vai embora, ciente do que é a solidão.
Sim, viver é perigoso. Mais perigoso, contudo, é deixar cada instante escorrer em vão pelos dedos. Perigoso mesmo é permitir que a vida vá embora sem de fato ter sido vivida. O Sol que nasce, e não dura mais que um dia, é a metáfora perfeita para explicar o quanto vale a pena se atirar, por mais que tudo acabe – o Sol que morre no horizonte é o mesmo que mostra toda a sua força na manhã seguinte.
Que venha o mundo. Que venha a vida. Eu me importo. Sinto falta, sinto saudades, e quero senti-las. Sinto sua presença, Amor. Com toda a relevância que você tem dentro de mim, eu te quero por perto. É justo que as pessoas tenham seu próprio tempo. Não obstante, o único tempo que importa agora é o presente, e meu presente é saber que há você.
Arthur Meibak
Em meio a alguns livros, eu junto planos e saudades. Minhas vontades, a partir de logo cedo, são de eu ser o melhor que posso. Respiro fundo e abro caminho rumo ao que eu ainda não sei.
É tempo de libertação e de entrega, tempo de exceção. Estes são dias em que eu miro os olhos da vida e a contemplo. Percebo comovido o fato de que é impossível impedir seu fluxo. O que faço então é acompanhar esse movimento de idas e vindas, de chegadas e de partidas. Vou me acostumando a não me habituar.
Fui traído pelas minhas certezas algumas vezes. Imaginei que a minha entrega seria o suficiente para eu vivenciar a sinceridade de relações verdadeiras, e para eu não me machucar. Justamente nesse ponto eu me desiludi. Eu me enganei ao pensar que a realidade pudesse ser reflexo da utopia que são minhas vontades. Em outras palavras, eu me enganei ao idealizar meus pares, querendo deles o que não se pode ter: Cumplicidade irrestrita.
A vida não é óbvia, nem são óbvias as pessoas que fazem ou fizeram parte do meu cotidiano. Os juízos de valor que eu tanto fiz são simplesmente ridículos. Ninguém é tão superficial a ponto de se resumir entre dualidades simples. As pessoas são muito mais do que boas ou más, belas ou feias. Obviamente são mais do que classes, crenças, ou cores. O Homem vai muito além do que a minha compreensão pode alcançar, por sinal.
Em posse dessa consciência, estou abrindo mais uma vez meus braços para o brilho e para a violência da vida, para a sua intensidade. Eu me atiro, como sempre, de corpo e alma. Mais do que isso, minha fé nas pessoas ainda é sincera, apesar de não mais incondicional. A consequência dela é o fato de eu estar pronto para ir embora quando for preciso. Estou pronto para chegar. Estou pronto para partir.
Não se trata de um começo. Não se trata de um final.
Tudo nessa vida é passagem.
Arthur Meibak
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Eu também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Bertold Brecht
Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Fernando Pessoa
(...)
"Podemos ir longe, se começarmos de muito perto. Em geral começamos pelo mais distante, o "supremo princípio", "o maior ideal", e ficamos perdidos em algum sonho vago do pensamento imaginativo. Mas quando partimos de muito perto, do mais perto, que é nós, então o mundo inteiro está aberto — pois nós somos o mundo. Temos de começar pelo que é real, pelo que está a acontecer agora, e o agora é sem tempo."
J. Krishnamurti
A última quarta-feira, 18 de maio, foi um dia atípico. O assassinato de Felipe Ramos de Paiva, aluno de Ciências Atuariais em vias de se formar pela FEA-USP*, impõe a todos nós uma reflexão sobre o momento em que vivemos. O foco não é simplesmente a morte de um jovem com todo o seu futuro pela frente, visto que esse tipo de barbárie reflete a luz do cotidiano paulistano. Trata-se de um debate a respeito de nossas relações sociais, bem como o papel da Universidade de São Paulo nesse contexto.
O primeiro ponto é a questão urbana, símbolo de gritantes desigualdades. A favela São Remo, ao fazer divisa com muros da Universidade, representa o mais claro contraponto à elite frequentadora do campus Butantã. O território, assim, simboliza uma espécie de fronteira interna da expansão capitalista baseada na manutenção de elevadas concentrações de riqueza.
Para tanto, a sociedade ocidental contemporânea, inserida nesse cenário por ela mesma criado, é pautada pelo individualismo. Esse processo de racionalização vê bases modernas na ascensão do pensamento liberal, difundido por teóricos iluministas como Immanuel Kant e Jeremy Bentham. Seus fundamentos são, primordialmente, a propriedade privada e a limitação do poder do Estado. Trata-se de uma tentativa de afirmação do indivíduo perante o âmbito social.
Essa realidade, por ser excludente, garante a existência de “discrepâncias” como a que aconteceu quase ontem no estacionamento da FEA. A pergunta que vem sendo discutida desde então é: Por que na USP? Respostas pontuais foram prontamente encontradas; falta de iluminação adequada e seguranças, entre tudo.
Uma pergunta importante seria: Por que não na USP? Observa-se uma tendência crescente de isolamento deste espaço acadêmico ante o resto da cidade. Uma das sugestões de combate à violência, inclusive, foi a instalação de catracas nos acessos à Universidade. A ideia, tão absurda quanto o argumento contra a “gente diferenciada”, na questão da linha laranja do metrô, sugere um regime de exclusividade para os alunos, principalmente – não é preciso lembrar que se trata de um espaço público.
A questão mais controversa, entretanto, é a entrada da PM nos domínios da USP. Antes de tudo, é preciso entender a questão legal envolvida nesse assunto. A USP é uma autarquia e, assim, possui autonomia com relação ao estado de São Paulo. Por outro lado, a polícia responde ao estado. Então, ao entrar no campus, ela se torna uma entidade independente, podendo exercer mandos e desmandos. É em todo o mundo que a polícia não entra em campi, e não apenas aqui. Essa é uma conquista histórica, pois se entende que a polícia vai de encontro com o livre pensar e a liberdade, ideais necessários em um ambiente acadêmico. Mais, um espaço de fato seguro não é necessariamente feito por policiais armados, que são mal treinados e mal pagos, como ocorre em São Paulo. Necessária mesmo é a mudança de paradigma referente à guarda universitária, que possui caráter de defesa patrimonial. Muito mais importante é capacitá-la e torná-la pessoal, no sentido de defender as pessoas que utilizam o espaço da Universidade.
É preciso que se exija do reitor um plano de gestão que priorize segurança e infra-estrutura necessária, ao contrário do gasto de milhões no deslocamento de funcionários para a reitoria retornar à Avenida Paulista. Mais do que isso, a questão não se limita a fatos pontuais, como instalação de postes ou câmeras de vigilância. Trata-se de um debate muito mais abrangente, referente à estrutura da nossa sociedade. Por fim, é um absurdo que uma pessoa precise morrer, para que medidas de segurança sejam tomadas.
*Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo
Arthur Meibak
Eu quero correr o mundo, ver o Sol morrer e nascer em todos os lugares que eu puder. Quero cantar os encontros e desencontros da vida, contar as horas para ver você chegar. Quero ir embora, voltar, olhar para trás e sorrir. Quero o dia que está por vir. Quero correr perigo.
Apesar de ser a maior de todas as minhas idealizações, viver o mundo talvez seja a menos ideal. Meu rumo é longe daqui, é perto, são ambos. Tudo ao meu redor parece distante. Então, são duas as proximidades que eu busco: Por um lado, há todo o mundo físico para eu alcançar. Por outro, pessoas.
Sinto-me ao mesmo tempo entregue a tudo e a mim mesmo. Eu costumava ter vontade de permanecer por anos, de aportar em colo seguro, eterno. Hoje eu quero ficar por meia hora e ir, abrir os olhos da saudade e partir. Quero durar apenas o suficiente para eu ser relevante.
Quero todos os motivos para me lembrar e para lembrar. Atiro-me em cada um dos amores. Faço deles razão de ser sempre que eu posso – às vezes o resguardo se faz necessário. É preciso também aprender a olhar sem rancor para o passado e aceitá-lo; perceber que as promessas de amor incondicional foram sinceras, apesar de a música sempre acabar.
Eu aceito tudo o que aconteceu em mim até agora, dos sorrisos aos sofrimentos. É assim que eu me preparo para o mundo, para percorrê-lo. Sou eu o responsável pelo que eu sinto. Não tenho o direito de atribuir essa responsabilidade a mais ninguém.
Quero correr o mundo, correr perigo. Assumo o risco.
Arthur Meibak
Quando eu era criança,
Adorava cirandar.
Dizia: Vamos brincar de ciranda?
Armem a roda. Vamos todos rodar.*
O quanto amei e o quanto eu amarei? Não. É impossível conhecer a medida verdadeira dos meus sentimentos e sensações. Posso até guardar o tempo que cada uma das eternidades da minha vida durou, mas não o quanto elas de fato foram eternas, em mim.
Eu me apaixonei tantas vezes... cada olhar e sorriso, únicos, ahh. Meus amores duram enquanto o ônibus passa entre as estações de seu itinerário, até que as “minhas” meninas desçam uma a uma, ponto a ponto, que teimam em sempre chegar. A contrapartida é a gente que embarca a cada parada.
Já fiz juras de amor eterno. Menti! Gritei aos quatro cantos do mundo minha vontade de parar tudo, de congelar os bons sentimentos, para eles nunca irem embora. Deixo-os - que escapem entre os meus dedos. Assim, novos suspiros ganham razão de ser no meu peito.
Hoje eu juraria o amor do instante, com toda a sua intensidade. Essa seria a jura mais sincera que eu poderia fazer. Ou ainda, deixo todas as promessas de lado - elas de nada servem. Eu quero o amor que chega sem pressa e vai embora sem avisar. Não preciso de um contrato assinado como garantia de amor sem fim.
Meu destino não pertence a ninguém, tampouco foi escrito previamente. Minhas escolhas guiaram meus passos até aqui. Meus erros e acertos. O que hoje forma meu ser. Não quero pensar o mundo daqui a um ano, ou a seis meses. Eu quero tudo agora. Minha felicidade merece não ficar marcada para o dia que ainda não chegou. Minha alegria deve ser o meio, e não o fim, no fim das contas.
Eu não tenho medo de me machucar, de machucar. Eu conheço o desamparo. Minha coragem decorrre desse fato. Sim, todo grande amor só é bem grande se for triste, caro Vinicius. É a tristeza do fim que carrega a magnitude da vida antes vivida, dos amparos, da existência de um porto seguro. Com o tempo, percebe-se a insegurança desse porto.
É exigência da vida a mudança. Reside aí a intensidade de tudo, indiferentemente do que as nossas voltas ao redor do Sol deveriam cronometrar, ou não.
*Cantiga popular
Arthur Meibak
O que me cativa... o que hoje faz parte de mim por ter cruzado em algum momento a minha vida, por ter se tornado relevante quando o fez... o que me cativou. Tudo o que eu vi e tudo o que já foi tocado por mim fazem parte da minha essência.
Minha vida inteira segue, de alguma forma, guardada em mim. Dos vultos desapercebidos aos momentos mais especiais, eu tenho tudo comigo. Está escrito na minha história o quanto eu mudei o mundo e o quanto ele me mudou. Minhas alegrias, meus amores eternos, minhas mágoas e meu cansaço são formadores do que eu sou, do que eu serei.
Dentre as minhas lembranças mais marcantes, certa vez eu encontrei uma daquelas pessoas especiais que só se conhece umas poucas vezes ao longo da vida - eu te conheci. Tratava-se de uma época especial para você e, a partir de então, para mim também. Eu me recordo claramente como estava o céu naquela noite. Além da Lua crescente, era possível ver estrelas, mesmo se tratando de São Paulo. O som das amizades conversando no bar, o vai e vem dos garçons, do chopp ao whisky com refrigerante, as conversas. Lembro-me de como eu pedi aquele beijo, bem como o gosto dele, com o qual eu tanto me familiarizei. Lembro-me do seu sorriso. As músicas que eu escutava naquela época, a sensação da sexta-feira virando sábado... eu me lembro de tudo.
Por vezes eu me vejo imaginando aqueles momentos, que se perderam no tempo. Vejo-me pensando naquelas pessoas que eu nunca cheguei a conhecer e em como certas coisas são inexplicáveis. Eu não sei explicar o que me fez deixar o meu dia para trás, a fim de chegar a tempo naquela noite. Não sei dizer de onde veio a certeza que eu sentia sobre o que fazer, enquanto eu ia para lá - foi um dos meus maiores acertos.
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro.*
Se hoje eu voltasse para aquele lugar, para aquele bar, eu não veria com os mesmos olhos a lua crescente e as estrelas. Aquelas pessoas seriam outras. As conversas seriam outras. Você não estaria lá, simplesmente porque você não existe mais.
Maio de 2010
*Álvaro de Campos
Arthur Meibak
Uma vez mais, minhas intenções passam longe de Lisbon Revisited. O céu, escuro nesses instantes, precede o começo do amanhã. Decerto, sinto plenamente que o declínio dos dias e das cousas está a enxergar um final. Eu já consigo sorrir para o horizonte, que passou a fazer um sentido inexistente em mim, até ontem de tarde.
Sim: Eu quero tudo. Já disse que eu quero tudo. Ó mágoa revisitada. A Lisboa de outrora de hoje deixa de exemplificar a nostalgia em minha vida, para me mostrar a profundidade dos meus sentidos e a necessidade encontrada por mim de querer tudo uma vez mais. Eu quero o mundo novamente. Eu quero o sorriso, o choro, a oposição, contradição. A intensidade! Sim: Eu quero tudo.
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Conseguiram, pois. Até a desilusão completa vestiu minhas vontades, ou a falta delas. Mas não. Não agora. Agora eu quero não ser sozinho. Eu quero dialogar com o passado, mas não quero morrer nele, nem por ele. Eu quero alçar meus vôos mais altos, a caminho do desconhecido. Que seja um sonho bom, daqueles em que todos vivem felizes para sempre, por mais que a eternidade dure um minuto só.
Eu busco os nossos segredos. Quero tê-los comigo. Eu quero ser fundamental, mesmo que por um breve instante. Não, o tempo não importa. Não me venham com conclusões! Não é essa morte a que eu busco. Minha morte só diz respeito ao passado, que não possui mais razão de ser em meu cotidiano.
Eu quero a insegurança de não saber o que virá. Quero distância do falso conforto proporcionado pelo sentimento de posse. Eu não quero te ter. Não devo querer. Não posso, mesmo que você vá embora com a mesma velocidade que te trouxe. Minha felicidade deve residir no fato de te ver sorrir, livre para existir da melhor forma possível.
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio não quero estar sozinho!
Arthur Meibak
– Falsas! São todas falsas as saídas que encontramos nessa vida – concluiu o rapaz. Os vôos por ele planejados fizeram com que seus pensamentos viessem para agora. Então, de uma hora para outra, o vento não lhe pareceu tão interessante como antes. Já não havia aviões no céu.
- Um simples sopro deve ser capaz de fazer um avião sair do chão – sussurrou para ninguém. Mais do que isso, ele pensou em momentos de sua vida e, pela primeira vez, pareceu a seus olhos castanho-escuros que o declínio do outono era realmente irrefutável.
- Quer dizer que esse é o final de tudo? O início? Ambos!
Em seguida, alguém bate na porta do quarto. Uma voz de mulher se prontifica a dizer alguma coisa, qualquer coisa. Essa simples ação suscitou lembranças de belas mentiras que já lhe foram contadas, e de quem as contou. Isso, de certa forma, deixou-o contente, por um momento. - As mentiras mais bonitas do mundo já me foram ditas! Juramentos de eternidade, de amor perfeito.
Sim, tudo fez sentido repentinamente. Nenhuma conclusão foi feita a respeito de a base de todo esse sentido serem mentiras. Não nesse instantinho, livre de qualquer culpa, como a que Kakfa projetava através de suas palavras. A culpa. Ah, a culpa! De natureza desconehcida, por ora. Condição do ser, essencial.
Tal realidade proporciona um tanto de angústia ao rapaz. – Os passos nunca são dados de acordo com os planos que eu vivo a fazer. Mais do que isso, a felicidade provém de inverdades? Começo, fim e meio. Ainda aprendo a lidar com a falta de controle que eu levo comigo mesmo, frente ao processo único de tudo; os finais e os começos.
Arthur Meibak
Tempo, tire tudo de mim! O meu querer, minhas ilusões, das promissoras às desanimadoras. Minhas esperanças e os sonhos que eu ainda tenho comigo, as maldições, os sentimentos, tão distintos entre si, aquele sorriso – ah, aquele sorriso –, aquele brilho... Tudo!
Se assim acontecer, novas ilusões, vontades e esperanças nascerão em mim, além de sonhos e sorrisos outros. A diferença terá algum lugar de ser, bem como os caminhos que eu escolho três ou quatro vezes por dia. Minha voz ativa possivelmente encontraria razões distintas para buscar novas glórias, para merecê-las, ao invés de esperar que as minhas rotinas simplesmente fossem contempladas com todas as honras do mundo.
Há, contudo, o que não pode ser tirado. Minha história, que não está escrita na areia de alguma praia que eu nem sei, não pode ser apagada com facilidade – não há onda que a leve consigo –, bem como as idas e as vindas da sua vida, sem final, cuja parte ínfima fora traçada nas mesmas linhas em que eu leio o inteiro da minha. Mais ainda, o sentido de tudo em mim não pode ser arrebatado, não pode ser deixado de lado, assim como os meus juízos.
Aquelas promessas. As juras de amor eterno. Eu não preciso mais delas. Eu não preciso da falsa certeza de que tudo vá durar para sempre, não mais. Les dernières vies nunca estiveram tão distantes de mim. Por isso, tire tudo, à exceção das coisas boas que eu fiz para quem eu amo, para quem eu amei, apesar de eu saber que o esquecimento é praticamente irrefutável.
Por fim, leve tudo o que tiver de ser levado; os momentos, as sensações, o presente e os amores. As certezas. Deixe então o que fica; as lembranças, a saudade, o passado e o desprotejo. As dúvidas. Siga seu curso, como há de ser. Eu tentarei te alcançar, uma vez mais.
Eu pretendo ainda desvendar, enfim, a sua luz, tempo.
Arthur Meibak
Deixarei tudo como está. Porta e janelas abertas, a despeito de eu tê-las fechado em momento inoportuno. Igualmente, deixarei o que eu fiz e o que eu não fiz terem razão de existir na página virada, lida e relida, do livro da minha vida. Eu sei que ainda tornarei a revirar os contos que falam da minha história. Eu voltarei. Voltarei meus olhos para as cortinas entreabertas. Lá esteve você, pronta para voar, enquanto o Sol das quatro horas começava a cair no horizonte e a TV contava as horas de um filme qualquer.
De repente tudo ficou como está agora. Meu sorriso, sem graça, querendo descanso, após a perda do caminhar, dos rumos e dos passos, que voltaram ao descompasso. Coração batendo no peito, feito batuque, e a entrega do viver, do meu querer. Tanto faz. Tanto fez.
Por esses dias, então, eu estive pensando que, se hoje mesmo eu deixasse de viver, alguns instantes eu jamais deixaria para trás, como aquela vez em que eu fui até o paraíso e voltei. Sim, eu fui ao paraíso, e que orgulho eu tenho de ter vivido aqueles minutos! Foi quando, pela primeira vez, eu senti que a minha existência fora de fato relevante. Eu me arriscaria a dizer que aquele foi o melhor momento dos vinte e tantos anos que contam a minha vida.
Se hoje eu morrer, longe de qualquer idealização romântica, levarei a consciência de que eu já vivi a única coisa que eu nunca poderia deixar de viver. Eu amei. De corpo, alma e coração, eu amei. Eu vivi o amor. Eu vivi o que parecia ser impossível viver. Essa é a verdade da minha vida. É a única certeza que eu tenho, frente a tantas dúvidas - são tantas as dúvidas!
Entre tudo o que já passou pelos meus olhos, essa é a verdade que me liberta. É a minha revolução, em meio a ideologias diversas e controversas. Aqueles planos que eu fazia perderam toda a razão de ser, mas eu não esperaria um segundo sequer para idealizá-los novamente, se eu ainda pudesse.
Arthur Meibak
