O personagem que veste minhas maneiras não é o mesmo que exercia esse papel há cinco, seis ou sete anos. Ele é também mais do que uma evolução reiniciada quando saí de casa pela primeira vez a fim de ir jogar futebol na rua, com cinco, seis ou sete anos.
Minhas intenções, quando o menino que eu era corria descalço sobre o asfalto quente, passavam impreterivelmente pelo desejo de aceitação frente a quem quer que se visse nas relações impostas por aqueles dias. Apesar disso, essa consciência era certamente inexistente em mim.
Em conseqüência das primeiras vivências, vieram os primeiros desamparos, as primeiras decepções. Um muro foi construído por mim ao meu redor. Uma máscara eu coloquei sobre minha face. Já não era a primeira, afinal.
Assim, todos foram sendo tidos como estranhos ao mundo que eu projetava sob a influência dos desenhos animados e dos contos de fadas que eu conhecia. Eu passava desta maneira a ocultar cada vez mais aspectos de minha personalidade, escondendo-a do mundo externo o tanto quanto fosse possível fazê-lo.
Essa herança é carregada pela aparência enganadora que personifica o presente, com as influências das vidas que não vivem o ar de agora. Há então a tal evolução do personagem, como um velho que há muito foi criança.
Contudo, não existe só essa característica na essência do fingidor. Aspectos novos são agregados cotidianamente. Objetivos são modificados de acordo com as mudanças de caminhos que os ventos costumam trazer de estações em estações, de maneira a se fazerem necessárias adequações às letras que escrevem o dia-a-dia de qualquer individuo.
Não sou o mesmo de ontem. Consequentemente, os personagens que me vestem também não são.

Arthur Meibak

O tempo flui como um rio, que segue rumo ao mar. Pseudolirismos à parte.
Tempo meu, vai atrás de alguma coisa que nem sei. Algum propósito, talvez. O propósito do rio talvez seja ser mar. O do tempo, ir embora.
Adeus, meu amor. O tempo leva meus dias para longe. É chegada enfim a hora em que os caminhos divergem entre si. Nossos rumos, que se cruzaram em algum momento, agora seguem o curso de rios que desaguarão em mares distintos.
Adeus, provavelmente para sempre. O que sobra são instantes inigualáveis, que insistem em serem levados por águas incertas, a caminho de um lugar onde só se pode chegar através de embarcações movidas por lembranças.
Tempo, quem sabe quando nos encontraremos novamente? Em quais vidas? Vá! Vá embora. É chegado o instante de voar, uma vez mais, rumo ao que desconheço, como deve ser.
Sei da importância que há em dividir uma tarde, que seja, com quem um dia passará a ser personagem de dias passados, que jamais se repetirão. Tal importância reside no fato de que isso é viver, é ter do que sentir falta, é querer novamente os motivos pelos quais risos tão sinceros vêm ao mundo, sem remorso de serem nada senão risos sinceros.
Adeus, passado. É preciso seguir em frente. É preciso fluir como um rio. Como o tempo, com ele. É preciso que eu me despeça, a fim de alcançar a eternidade, uma vez mais, apesar do nó que se faz em minha garganta toda vez que desejo dar meia volta, movido pelo saudosismo de momentos que chego a desejar com todo o meu querer. Não há solução. Não há retorno.
Assim, o que posso fazer é me despedir, a contragosto, confesso. Despeço-me a favor do que vem, do que virá. Não posso negar todo o sofrimento que essa obrigação causa em mim. Não sei como suceder frente a isso. A conclusão seria deixar meus sentimentos se cansarem do que a eles não mais faz correspondência, do que os feriu.
Goodbye my love, The tide waits for me.

Arthur Meibak

Eu me entreguei com toda a minha sinceridade. Entreguei meu corpo, minha alma e o coração que levo comigo, exatamente como fazem os personagens idealizados das histórias que não contam o que de fato é cotidiano. Esqueci, contudo, de me apanhar de volta. Perdi-me antes que eu pudesse fazer isso.
O perder-me, desta vez, não é aquele estado que alcançam as pessoas que se vêem envolvidas com o oposto do que propõe a solidão. Não é o perder-se por amor. Chega a ser um passo além disso. Trata-se, pois, de um encontro com a desilusão, com o desamparo, o desprotejo. Sinônimos para tal não são escassos, assim como o que faz essas palavras terem razão de ser em mim. Tem sido assim, ao menos.
Nessas últimas estações, não houve ainda um dia sequer sem que eu pensasse, nem que por alguns momentos, em tudo o que afastava essa ausência, da qual não consigo me livrar, apesar das tentativas. Meu coração ainda dispara quando ouço Condicional*. Fato é que não deveria ser algo tão árduo de ser superado. Tenho meu próprio tempo, afinal. Tempo esse que não pude contemplar ainda com mudança de rumos, desde a última variação de minhas certezas, causada por ação de agentes externos à minha vontade, devo ressaltar.
O conforto que sempre busquei e que, por vezes, encontrei nunca me confortou, apesar da aparente contradição, não mais que ilusória, incumbida na presente afirmação. De tal modo, vejo-me desejoso por existir da melhor forma possível, dia após dia. Essa realidade representa, por si só, mudança quanto ao que delimita o pretérito mais que perfeito vinculado às minhas memórias.
Não sinto arrependimentos por ter oferecido minha existência ao presente, que, invariavelmente, tornou-se passado. Fiz o melhor que pude. Essa é a convicção que levo em meu peito, sem despeito do coração que não pude ainda resgatar.

*Los Hermanos

Arthur Meibak

Estive, com o passar desses últimos dias, pensando mais do que brevemente a respeito de como agem, ou reagem, em determinadas circunstâncias, pessoas.
Sinto-me contradizendo o motivo de ser, não só destas, mas, de todas as linhas que intento escrever, com fim de expor vivências que dão sentido às minhas horas. Sinto isso ao mostrar juízos sobre quem quer que seja distinto de mim. Contudo, não posso deixar de me revoltar e me sentir provocado com determinadas condutas.
Assim, a troca de uma segurança por uma insegurança, agarrando-se a esta, sem que se largue aquela, levanta repulsa em meu ser, se não, ódio. A insegurança, com isso, torna-se segura, dentro das motivações por ela propostas.
Não é fácil ter que deixar um mundo confortável, para, somente depois disso, embrenhar-se em uma terra desconhecida. É mais fácil tornar conhecido o desconhecido, antes de abandonar o que já se sabe, largando-o posteriormente, apenas.
A mão que acaricia é a mesma que apunhala, bastando, para isso, que se tenham as promessas fáceis capazes de transformar as voltas de uma realidade insólita. Mais simples que mudar tal fato é ser mudado por ele, de forma a se tomar um caminho cujo deleite individual seja maior que os desprazeres coletivos.
Aprendo, assim, o que é ser humano. O que são algumas formas de buscar pelos meus próprios prazeres. Tive chances de executar esse ideário, antes que o usassem contra minha pessoa. Não o fiz. Não me arrependo. Não me arrependerei, jamais, apesar da força deste dizer. Jamais! Devo repetir.
Passo, enfim, a presenciar a transformação de meus sentimentos. I've loved, turned to hate. Que seja encontrada a tal felicidade, buscada por quem quer que seja, capaz, ou não, de vislumbrar meios controvertidos para alcançar esse estado.
Perco meu tempo escrevendo isso.
Minha consciência é tranqüila, afinal.

Arthur Meibak

Carpe Diem é expressão que nunca precisou fazer tanto sentido para mim, até agora. Acostumei-me a, por vezes, ouvir alguns clichês em latim como esse, desde vidas condizentes com a Arcádea Lusitana, sem levar em conta o fato de que buscar o amanhã é costume antigo de minha parte, assim como as tentativas frustradas de reviver sensações outras que não as deste momento. Essa realidade, conflitante com o tal dizer latino, tem trazido, se não pesar, arrependimentos ilegítimos, além de me forçar a querer os traços esboçados pela mesma pena que retratou a utopia de Manoel Bandeira.
O sacrilégio de comparar alguns devaneios com o que expôs o mestre de Vinicius não é maior do que viver qualquer coisa que não esteja acontecendo agora. Contudo, a constante viagem ao redor do mundo de outrora redunda em algo que ocorre neste segundo, assim como estas letras, cientes da metalinguagem por elas incumbida, como se tivessem consciência acerca do que acontece em mim. Não sei.
Passado e futuro. Esse talvez seja questionamento exposto por dado Buda ou Krishnamurti. Talvez, à parte a pretensão. Quem são eles, afinal? Quem sou eu? Pergunto mentalmente a alguém que nem sei. Quanta metafísica gasta com pensamentos opostos à ausência deles, conduzida por Caeiro, enfim. Quantos personagens. Será que eu pude depreender um centímetro do que fora exposto por tais? Tantas figuras, qual o personagem que monto sempre que acordo, ou mesmo antes disso. Uma farsa! Mais uma.
Esse segredo já não é segredo. Igualmente vagos são os pensamentos que vão, rumo ao que deve, porventura, ser, tomados pela base de dias cujas crônicas não foram ainda escritas; cuja voz passiva não fora desmentida.
São tantas as idas e as vindas, pormenorizadas por repetições grosseiras no meio do caos, que chegam a dizer nada. Confusão.
A caminhada é longa. Tem sido, marcando a estrada delimitada pelos meus passos, ao longo das vidas com as quais me deparo, sempre que iludo a mim mesmo com as imagens de ontem, fato que se antepõe paradoxalmente ao tal Carpe Diem.

Arthur Meibak

Sobra falta em mim. Desde a mais distante lembrança que tenho, recordo-me desse vazio. É como se, independentemente do que eu fizesse, essa sensação continuasse a existir.
Vivo tentando suprir essa ausência, sem saber o que, de fato, falta. Tenho passado minha existência anotando meus planos e meus objetivos, sem, contudo, dar-me conta de que minha felicidade está sempre marcada para amanhã, ou depois. Conto mais de vinte anos sem que eu me visse satisfeito, a desejar o próximo passo rumo à plenitude, que nunca chega.
Minha vida é sempre o dia seguinte, a hora que ainda não chegou. São os anos que tenho gastado, esperando por qualquer que seja a mão capaz de me salvar do abismo que eu desconheço, apesar de saber o número de palmos que contam seu tamanho.
Eu não vivo em paz, sozinho. Não sei dizer que me vejo afetado por coisas pequenas aos olhos do cotidiano. Vivo perdendo minhas horas com inutilidades, sob a óptica da minha existência, que, por sinal, vive encontrando embaraço à fé que tenho quanto às cousas da vida. A certeza que levo comigo quando acordo não costuma ser a mesma que me guia quando vou dormir. Nau sem direção, guiada por mapas e bússola que levam a caminhos antagônicos, é o que sou. Já não tenho os mesmos anseios que tinha duas horas atrás. O dia é incerto, ou não.
Sempre vai faltar uma parte, mesmo quando eu acreditar ter descoberto a solução de tal desigualdade. Parece-me. Não tem bula meu remédio*.

*O Teatro Mágico
Arthur Meibak

Tão ridículas como as cartas de amor, longe das intenções de Lisbon Revisited, são as frases que intento escrever nesta hora. Em contraste com isso, há coisas outras que foram rabiscadas em minha vida e que registrei em linhas há dias e/ou meses.
A dor, tão verdadeira quanto parte do passado, é vista agora como alguém que se despede após momentos de felicidade e pesar, intrínsecos a qualquer que seja qual meu ser.
Um sorriso sincero é retrato do que sou nesse exato segundo. Sinto-me bem, a despeito de lágrimas passadas. Tão certa quanto isso é a consciência da motivação para tal. A certeza me liberta uma vez mais. A incerteza, também.
Em adição, a ambivalência resultante do ar que respiro volta a mostrar sua existência ante meus olhos. Aceito-a como quem reconhece da vida o pesar. Cada centímetro de sofrimento corresponde individualmente a todos os centímetros que contam minhas risadas. Assim, levo comigo que o todo sentido por mim nesse instante não apagará as decepções que terei além dos dias que se seguirão em algum momento. Essa compensação sequer deve ocorrer, incontestavelmente.
Assim, verdadeira é a ideia de que busco acalentar minha alma ao escrever sobre o que me fere. Em contrapartida, rabisco nesta folha sem precisar fugir de sentimento algum. Observo meus risos comparando a luz proveniente deles a uma criança que acaba de ser presenteada em uma data peculiar qualquer. Sou tão infantil. Minha felicidade é igualmente passageira, tanto quanto o que lhe é antagônica. O senão fica por conta da certeza de que, uma vez ausentes, esses sentimentos voltarão, em ciclos, pois são tidos como estados de espírito, mutáveis como isso. Aceito a condição. Minha vida é hoje, agora, enquanto escuto as músicas de amor que irrefutavelmente foram bloqueadas pelas minhas sensações, quando inertes em estações passadas.
A noite vai se esvaindo. Não tenho vontade de ir dormir. As cartas de amor são ridículas, enfim.

Arthur Meibak


Arthur Meibak

Sobre este blog

Sei da eterna necessidade de questionar. Aqui isso se dá, obviamente, sob a ótica dos meus olhos. O resultado são linhas que versam a respeito do que vivencio. É, pois, a crônica dos meus dias, que possui inegavelmente um viés, fruto do que sinto e do que vejo.

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